
Silos de dados: o inimigo invisível da tomada de decisão
agosto 22, 2026Em 10 de agosto de 2026, Mark Zuckerberg publicou no site da Meta um manifesto de 6.500 palavras intitulado “The Future Is for Everyone: The Path to a Positive AI Future”, assinado simplesmente “– Mark”. O texto organiza sua visão de IA em três princípios: empoderamento individual como fonte de prosperidade, invenção como propósito central da superinteligência, e equilíbrio de poder como base da segurança.
O argumento central é construído por analogia: se uma única pessoa tivesse acesso exclusivo a uma superinteligência de cibersegurança, ela poderia invadir praticamente qualquer sistema; se todos tiverem acesso, os sistemas do mundo, no conjunto, ficam mais seguros. Zuckerberg estende esse raciocínio à superinteligência de forma geral. O maior risco, escreve ele, não é a tecnologia em si, mas a concentração do seu controle nas mãos de poucos laboratórios, empresas ou governos.
Esse é um primeiro ponto de atenção. Nesse momento, a Meta está perdendo a corrida para outras iniciativas e empresas de IA como Anthropic e OpenAI. Será que falaria nesses termos se estivesse na liderança. De qualquer forma, é um ponto para se pensar seriamente. Uma tecnologia tão brutalmente evolucionária, concentrada em empresas trilionárias que se conta nos dedos de uma mão pode ser, quando menos, um freio no desenvolvimento da sociedade ou, pior, uma dependência e até uma ameaça aos estados nacionais. Já estamos vendo isso, de uma certa forma, com as redes sociais e os atritos com os Estados Nacionais em todas as partes do mundo.
Tudo é só para refletirmos.
Ao manifesto de Zuckerberg somam-se anúncios concretos e positivos: a Meta retoma o lançamento de modelos abertos, depois de um período mais fechado; todo usuário passa a ter um “agente pessoal”; a empresa cria um fundo de US$ 1 bilhão para comunidades vizinhas a seus data centers; o conselho da Meta passará a avaliar formalmente se novos modelos atendem a critérios de segurança; e Zuckerberg defende cooperação mais próxima entre laboratórios de IA e governos, incluindo manter controles de exportação sobre chips e compartilhar checkpoints de treinamento com autoridades.
O texto chega num momento em que a opinião pública americana está mais hostil à IA, políticos dos dois lados do espectro pedem mais regulação, mais controle, e até laboratórios concorrentes sugerem desacelerar. Zuckerberg escolheu o caminho oposto: otimismo declarado, em bloco, sobre uma tecnologia que ainda ninguém — nem ele — viu operar em escala plena.
Prever o futuro é o jogo mais perdido dos times de tecnologia
Vale lembrar que este não é o primeiro manifesto de Zuckerberg. Em 2017, ele publicou “Building Global Community”, um texto de cerca de 5.700 palavras sobre como conectar o mundo resolveria parte dos problemas sociais da época. Nenhum dos dois documentos é o problema em si. O problema é o gênero: manifestos de tecnologia descrevem, com grande confiança, um futuro (geralmente auspicioso) que na verdade ninguém consegue prever.
A prova está na própria história da internet e das redes sociais. Quando essas ferramentas foram apresentadas ao mundo, conectar pessoas, dar voz a todos, democratizar informação eram o futuro que empolgava. Praticamente nada do que aconteceu depois estava no roteiro. Redes que viraram infraestrutura para crime organizado e tráfico de pessoas, darkweb. Campanhas de desinformação orquestradas por atores estrangeiros interferindo em eleições — uma ameaça direta à soberania de países. Funis de radicalização com consequência de violência no mundo físico. E uma erosão mais ampla da base de fatos compartilhados da qual qualquer democracia depende para funcionar. Nada disso constava em nenhum manifesto. Eventos e desafios que surgiram do uso, em escala, ao longo de anos.
Não foi um acidente pontual: foi um padrão. Não é culpa da tecnologia. É o uso humano que se faz dela. Talvez nem seja evitável. Mas, se aprendermos com o “roadmap do caos” que já vivenciamos, talvez possamos minimizar o “dark side” que certamente virá ou já veio! Bom, está aí o mundo da deepfake: a Deloitte projeta que fraudes financeiras habilitadas por IA generativa (não só deepfake) cheguem a US$ 40 bilhões nos EUA até 2027).
O mesmo vale para as coisas boas que também não foram previstas. Movimentos de organização popular e ajuda mútua durante desastres e levantes políticos se potencializaram. Uma economia inteira de criadores e pequenos negócios que simplesmente não existia antes das plataformas se ergueram e prosperaram. Famílias e diásporas mantendo vínculo à distância, a custo quase zero. Comunidades de pacientes com doenças raras se encontrando pela primeira vez. Nada disso estava nos discursos (ou manifestos ou planos) dos fundadores das redes sociais e ainda assim mudou vidas de forma concreta e positiva.
O ponto, repito, não é que a tecnologia seja boa ou má. É que nem o bem e nem o mal que ela vai causar costumam ser fáceis de projetar. Zuckerberg, em 2017, prometia conectividade como cura para problemas sociais; em 2026, promete superinteligência distribuída como garantia de liberdade individual. Em ambos os casos, é uma descrição do futuro que a empresa almeja, escrita com a confiança de quem (acha que) já sabe como a história termina. A experiência recente sugere que, na maioria das vezes, ninguém sabe — nem mesmo quem escreve o manifesto.
Está atrás da corrida e quer marcar posição?
A pergunta incômoda retorna: o momento do manifesto é uma coincidência? A cronologia é conhecida. O Llama 4 decepcionou desenvolvedores em abril de 2025. Em resposta, a Meta investiu US$ 14,3 bilhões numa fatia da Scale AI, criou o Meta Superintelligence Labs em junho de 2025 sob a liderança de Alexandr Wang, e cortou cerca de 600 posições dentro desse mesmo laboratório cinco meses depois. A empresa hoje projeta algo perto de US$ 145 bilhões em investimento de capital só em 2026.
Vários veículos e analistas do setor notaram que o argumento de que “poder distribuído é mais seguro que poder concentrado” é, coincidentemente, o argumento que mais beneficia uma empresa que hoje não tem o modelo fechado mais avançado do mercado. Sugerimos algumas leituras:
- The Atlantic (via WDC News 6) — “Mark Zuckerberg’s Convenient Truth
- BIT — “Zuckerberg’s AI Manifesto: Personal Superintelligence
- HackerNoon — “Zuckerberg’s Superintelligence Memo: The Whole Argument Rests on One Premise”
Nada disso coloca sob suspeita a sinceridade de Mark. Zuckerberg defende abertura e “conectividade” como valores centrais desde bem antes deste ciclo de IA. O manifesto de 2017 já usava linguagem parecida, num contexto de negócio completamente diferente. Reduzir o texto de 2026 a puro cálculo de quem está atrás na corrida talvez seja simplificar demais: convicção genuína e interesse comercial não são mutuamente exclusivos.
Talvez a pergunta mais útil não seja “ele acredita nisso ou é só posicionamento?”. Essa é praticamente impossível de responder de fora. A pergunta mais útil é: com o que a Meta está se comprometendo concretamente? Revisão de segurança pelo conselho, manutenção de controles de exportação sobre chips, compartilhamento de checkpoints com governos, retomada de modelos abertos — esses compromissos são verificáveis, independentemente da motivação por trás deles. A visão de dez anos sobre superinteligência distribuída, por outro lado, provavelmente vai surpreender todo mundo — inclusive o autor do manifesto.

